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Quando a inovação vira ameaça

o Pix e os EUA

*Por Laryssa Almeida

Lançado em 2020, o Pix virou o “queridinho” dos brasileiros. Mais do que um meio de pagamento instantâneo, gratuito e eficiente, ele se tornou uma verdadeira política pública de inclusão financeira e alavanca para pequenos negócios. 

Segundo um estudo da FGV divulgado em março de 2025, cerca de 63% dos brasileiros fizeram uso do Pix ao menos uma vez por mês em 2024, realizando em média 32 transações mensais por pessoa. O volume total movimentado no ano de 2024 ultrapassou R$ 26 trilhões, um salto de quase 54% em relação a 2023.

Esse sucesso, porém, incomoda.

Na última terça-feira, o governo dos Estados Unidos, sob o comando do presidente Donald Trump, iniciou uma investigação comercial contra o Brasil, com base na Seção 301 do Código de Comércio norte-americano de 1974. O motivo declarado? Supostas práticas comerciais desleais e ataques a empresas americanas de mídia social. 

Mas o que está realmente em jogo?

É difícil não associar essa movimentação ao crescimento exponencial do Pix como ameaça real às big techs e às bandeiras de cartão de crédito norte-americanas, que operam com tarifas e estruturas pesadas. O sistema criado pelo Banco Central do Brasil impacta diretamente empresas como Mastercard, Visa, American Express, PayPal, Meta, e outras que viram, de repente, um mercado inteiro migrar para um modelo gratuito, eficiente e 100% nacional.

Em contrapartida, o próprio Federal Reserve lançou em 2023 o FedNow, seu sistema de pagamento instantâneo, que não teve a mesma aceitação, usabilidade ou capilaridade. Enquanto o Pix se espalhou do litoral ao sertão brasileiro, o FedNow permanece restrito e com baixa adesão. A comparação entre os dois modelos é inevitável e desconfortável para quem sempre se viu como referência.

Mas há algo ainda mais profundo por trás dessa ofensiva.

Trump, que se comporta mais como um “xerife do mundo” do que como um estadista, age em nome de interesses privados que orbitam sua atuação política, como sua plataforma Truth Social, atualmente citada no inquérito das fake news em andamento no STF. É a lógica de quem transforma política em espetáculo, substitui o diálogo pela lacração, e os parlamentos pelos palanques digitais. 

Logo, o ataque ao Pix brasileiro é mais uma cortina de fumaça, um show pirotécnico, para proteger um sistema que não soube inovar, nem competir.

Essa tentativa de frear uma solução genuinamente brasileira acende um alerta vermelho. Estamos assistindo ao velho padrão de interferência dos EUA em países do Sul Global: ontem, era o fantasma do comunismo justificando golpes e ditaduras. Hoje, são os interesses de mercado e a geopolítica da tecnologia sendo usados como armas de pressão.

Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos apoiaram diretamente o golpe militar de 1964 no Brasil. A história mostrou, com dor, o preço dessa interferência: censura, repressão, tortura, desaparecimentos. Ainda hoje, muitos flertam com esse passado sombrio, ignorando a violência e a ausência de liberdade que ele representou, como tão bem retrata o livro “Ainda Estou Aqui”, de Marcelo Rubens Paiva, adaptado para o cinema em uma produção premiada com o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025. 

No Brasil, o Pix representa mais do que tecnologia: representa soberania, inovação e uma nova forma de pensar o papel do Estado na economia digital. Defender o Pix é defender um modelo de desenvolvimento que prioriza o bem-estar coletivo e não os lucros de conglomerados estrangeiros.

A democracia exige vigilância constante e coragem para defendê-la. E nosso Pix é uma inovação que merece ser protegida, não apenas como tecnologia, mas como símbolo de um Brasil que pode liderar pelo exemplo.

*Laryssa Almeida é jornalista, advogada, mestre em Direito Econômico pela UFPB, doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade de Salamanca na Espanha. Ex-Secretária de Ciência Tecnologia e Inovação e de Desenvolvimento Econômico do Município de Campina Grande. Atualmente Laryssa é Assessora Especial da CINEP.

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