CidadeColunasdestaqueEsporteInovação e DesenvolvimentoMundoNews

Indústria do bem-estar: um mercado global de trilhões

Inspirações Literárias para Corredores e para a Vida

*Por Laryssa Almeida

Uma pausa nos temas de inovação e desenvolvimento para falar sobre algo que muito motiva meus dias: a corrida! E que, no fundo, não deixa de ser uma forma de inovação, principalmente em torno da crescente indústria de wellness (ou bem-estar), um vasto universo que abrange desde cuidados pessoais e alimentação saudável até turismo e, fundamentalmente, atividades físicas.

Este é um setor que movimenta cifras bilionárias em todo o mundo: avaliado em cerca de US$ 5,6 trilhões em 2022, o mercado global de bem-estar projeta alcançar impressionantes US$ 8,5 trilhões até 2027, de acordo com o renomado Global Wellness Institute (GWI). Segundo o relatório, só o setor das atividades físicas, que incluem as corridas, representa uma receita de US$ 506 bilhões.

No Brasil, esse setor também apresenta um crescimento vigoroso, com um movimento de aproximadamente US$ 96 bilhões em 2022, colocando o país em 12º lugar no ranking mundial, ainda segundo o Global Wellness Institute (GWI). A corrida, nesse contexto, representa tanto uma poderosa alavanca para o desenvolvimento pessoal e mental quanto um vetor econômico com impacto significativo.

É essa profunda conexão da corrida com o bem-estar e o desenvolvimento, seja ele pessoal, social ou econômico, que me levou a aprofundar minha própria jornada e buscar novas perspectivas. Assim, ao decidir me preparar para minha primeira maratona, revisitei livros que já havia lido anos atrás, buscando dicas e inspirações que pudessem enriquecer essa nova fase. Os livros de Haruki Murakami e do Dr. Drauzio Varella foram os primeiros que reli. Há ainda uma lista de mais livros que quero ler durante minha preparação. Contudo, esses dois foram indicações da corredora e bookaholic (um termo informal, de origem inglesa, para quem é viciado em livros e tem um amor extremo por eles) Carol, uma amiga que “profetizou” anos atrás, na minha primeira prova, a corredora que eu me tornaria.

Apresento, a seguir, minhas percepções desses dois livros que me reconectaram com a essência da corrida nas últimas semanas. Espero que sirvam de inspiração e convidem você, leitor, a experimentar a corrida de rua!

Livro “Correr: o exercício, a cidade e o desafio da maratona”, do Dr. Drauzio Varella

O Dr. Drauzio Varella nos oferece uma perspectiva técnica e igualmente inspiradora sobre o ato de correr. Com a clareza e a sagacidade de um médico e grande comunicador, Drauzio explora os benefícios fisiológicos e psicológicos da corrida, desmistificando o esporte e incentivando sua prática para pessoas de todas as idades. Ele aborda desde a evolução do corpo humano para a corrida, com insights sobre biomecânica e adaptação, até as nuances de se integrar à paisagem urbana, transformando as ruas em pistas de autoconhecimento.

O livro é um convite à ação, fundamentado na ciência, mas permeado por reflexões pessoais sobre a liberdade e a simplicidade que a corrida proporciona. A máxima de Drauzio de que “correr é experimentar a liberdade suprema, é voltar aos tempos de criança” ecoa perfeitamente nas minhas próprias memórias de infância, correndo com meu pai e irmãos pelos trilhos de uma estação de trem abandonada em Campina Grande em direção ao Açude Velho, onde fazíamos todo o contorno e voltávamos cheios de energia para casa de Vovó Bezinha (minha avó paterna) para tomar café da manhã. 

Ao longo dos anos correndo, fui conectando a corrida a muitos fatos da minha vida, desde as brincadeiras de pega-pega, até o desafio de correr no menor tempo que eu conseguia todo o trajeto entre minha casa e a casa da minha avó paterna, na maioria das vezes concorrendo apenas comigo mesma, às vezes desafiando meu irmão Lukas. Essa conexão com a infância e a redescoberta da liberdade de movimento que a corrida proporciona são um contraponto à complexidade da vida adulta, um lembrete de que, às vezes, as soluções mais simples são as mais transformadoras.

Drauzio também nos presenteia com um esclarecimento definitivo sobre a história que deu origem à prova Maratona. Partindo da narrativa de Heródoto, ele desvenda o mito de Fidípides ou Filípides (como preferem alguns historiadores), que, ao contrário da lenda popular de ter corrido 42 quilômetros em seis horas antes de desfalecer, percorreu na verdade 225 quilômetros em apenas dois dias, distância que separa Atenas de Esparta. Essa distância e tempo asseguram a Fidípides o título de primeiro ultramaratonista da história. A corrida até Atenas para dar notícia da vitória grega, na realidade, foi realizada pelo exército ateniense vencedor, que percorreu os 42 quilômetros entre Maratona e Atenas para impedir que os persas os precedessem. 

A lenda de um soldado que correu 42 km em 6h para dar a notícia da vitória e depois morreu surgiu 600 anos depois, como esclarece o autor. A ideia de organizar uma prova cobrindo essa distância entre as cidades gregas, por sua vez, “veio do francês Michel Bréal nos primeiros Jogos Olímpicos modernos, em 1896, em Atenas. No ano seguinte, aconteceu a primeira maratona recreativa, na cidade de Boston”.

Por fim, é impossível não se inspirar com a história pessoal do Dr. Drauzio Varella. Ele começou a correr aos 50 anos para provar a si mesmo que a decadência não começaria nessa idade, como um colega de juventude havia sugerido num reencontro nas proximidades do largo de São Bento (centro da capital São Paulo). Assim, a “decadência” não apenas não chegou, como em 2022, aos 79 anos, 5 meses e 1 dia, o autor quebrou o recorde mundial e se tornou o atleta mais velho a receber a Six Star Medal, medalha conferida aos corredores que completaram as seis maiores maratonas do mundo: Berlim, Tóquio, Londres, Nova York, Boston e Chicago. Além disso, entrou para o “Hall da Fama” dos maratonistas no perfil oficial da Abbott World Marathon Majors.

Não há como não se sentir impulsionado com a leitura desse livro! Ao terminar a releitura, tive a mesma vontade de calçar o tênis e sair correndo.

Livro “Do que eu falo quando eu falo de corrida”, de Haruki Murakami

Nesta obra profundamente introspectiva, Haruki Murakami nos convida a uma jornada não apenas pelas ruas e trilhas que percorre, mas também por sua mente e seu processo criativo. Mais do que um manual de corrida, o livro é uma autobiografia filosófica, onde Murakami traça paralelos entre a disciplina de correr maratonas e o rigor necessário para ser um escritor. 

O autor nos revela como a persistência nas longas distâncias, o enfrentamento da dor e do tédio, bem como, a busca por um estado de fluxo mental são espelhos de sua dedicação à escrita. A dor física, para ele, é uma ferramenta para desobstruir a mente, levando a um estado de clareza e criatividade. Sua honestidade brutal sobre as dificuldades e os prazeres da corrida, a inevitabilidade da dor e a opcionalidade de encarar como sofrimento, como ele sugere, ressoa profundamente em quem busca um propósito maior nos quilômetros percorridos. 

Gostei especialmente da passagem em que o autor narra sua própria experiência ao correr o trajeto entre as cidades gregas de Atenas e Maratona. Em uma espécie de peregrinação moderna, e apesar dos percalços: calor excessivo, trânsito intenso e a solidão de correr mais de 40 km sozinho, sem linha de chegada nem medalha ao final, ele concluiu o trajeto em 3h51min. Apenas o velho do posto de gasolina, que o presenteou com flores arrancadas de um vaso e deu-lhe os parabéns, marcou o término de sua jornada pessoal.

A Maratona de Atenas acontece anualmente em novembro, iniciando na cidade de Maratona, descrita pelo autor como amistosa, calma e pacífica. A narrativa do livro me fez sonhar em correr pela Avenida Maratona, circular ao redor do Memorial da Batalha de Maratona e viver a experiência de um dos eventos esportivos mais icônicos do mundo, devido à sua profunda conexão com a história e a mitologia.

Para mim, o livro de Murakami é um lembrete constante de que a corrida é uma forma de meditação ativa, um espaço onde podemos nos confrontar e, por que não, nos entender melhor. É a prova de que cada passo é uma linha escrita na história da nossa própria superação, uma metáfora para a construção gradual de qualquer grande obra, seja um livro, um projeto inovador ou uma vida plena.

É essa simplicidade e profundidade que me impulsiona agora, mais uma vez, a olhar para o horizonte do meu próximo grande desafio. Minha trajetória na corrida tem sido de descobertas e superações, e os livros de Murakami e Varella foram faróis que me guiam nessa jornada.

Correr é muito mais do que mover os pés rapidamente! É um diálogo constante com o corpo, que se adapta e se fortalece, assim como com a mente, que aprende a lidar com o desconforto e a manter o foco. Logo, é uma forma de inovar o bem-estar pessoal, de desenvolver resiliência, ou seja, a capacidade de se recuperar e se adaptar diante das adversidades, bem como de se conectar com uma comunidade global de apaixonados por desafios.

*Laryssa Almeida é Advogada, especialista em Ciências Criminais, mestre em Direito Econômico e doutoranda em Ciências Sociais (Antropologia) pela Universidade de Salamanca, Espanha, onde desenvolve pesquisas nas áreas de políticas públicas para inovação, uso de IA generativa nas publicações científicas e inclusão digital de grupos em situação de vulnerabilidade. Atualmente é Diretora Presidente do Centro de Inovação em Política, Economia e Direito (CIPED) e analista da Companhia de Desenvolvimento da Paraíba (CINEP), liderando projetos estratégicos de inovação, desenvolvimento econômico e políticas públicas.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

Botão Voltar ao topo