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A pior cegueira é a mental: meu olhar sobre a “PEC da Bandidagem”

*Por Laryssa Almeida

Neste domingo, 25 de setembro, em Portugal, terra de José Saramago, ganhador do Nobel de Literatura em 1998, participei da Meia Maratona Odivelas/Loures (cidades que fazem parte da Grande Lisboa) e bati meus recordes pessoais nas distâncias de 5K, 10K e 21K! 

A sensação de superar limites, de ver cada passo impulsionando o próximo desafio, é algo que transcende o esporte e me inspira a buscar sempre mais. Depois da prova, não me canso de um bacalhau à brás e de sobremesa uma meia de leite com pastel de nata. E foi com a vista serena do Rio Tejo que me inspirei a falar de corrida e política, de visão e cegueira, inspirada na obra “Ensaio sobre a Cegueira”, do português nascido em Azinhaga

No romance de 1995, Saramago descreve uma epidemia de “cegueira branca, como um mar de leite e jamais conhecida”, que rapidamente devastou uma cidade, expondo a fragilidade humana e o colapso social que nasce da crueldade, da indiferença e da desumanização. A obra continua atual e serve para entender a “cegueira mental” que parece assolar parte da nossa classe política no Brasil.

Enquanto aqui, em Portugal, celebrei meus novos recordes pessoais, no Brasil, a Câmara dos Deputados atingiu um patamar recorde, mas de absurdos. A aprovação da PEC da Blindagem ou, como prefiro chamar, “PEC da Bandidagem” e a urgência na votação do projeto de lei da Anistia (que nem texto finalizado tem) para quem atentou contra a nossa democracia. Os dois atos me remetem à pior cegueira: aquela que se recusa a ver a justiça, a ética e o futuro!

É um contraste brutal: aqui, em solo português, tive o privilégio de conhecer o projeto incrível Sexto Sentido, uma iniciativa que promove a inclusão e dá oportunidade para que pessoas cegas ou com baixa visão participem com guia de corridas de rua e caminhadas. Uma verdadeira lição de humanidade e desenvolvimento social. Já, no Brasil, a Câmara dos Deputados parece empenhada em um movimento contrário, uma “inovação” perigosa que tenta cegar a justiça e amarrar as pernas da nossa democracia. Querem garantir impunidade para uma elite política que, tal qual os personagens cegos de Saramago em seu pior estado, age com egoísmo e indiferença, achando que as regras não valem para eles.

Como advogada e pesquisadora em Ciências Sociais, vejo essa conduta como um retrocesso civilizatório. O desenvolvimento econômico e a inovação que tanto buscamos não podem florescer em um ambiente onde a integridade e a responsabilização são sacrificadas por interesses escusos. Minha posição é, portanto, inabalável: sou veementemente contrária a este pacto espúrio que compromete o tecido social e mina os pilares do Estado Democrático de Direito.

É o futuro do Brasil, da nossa sociedade, que está em jogo nesta maratona por justiça. A linha de chegada de uma democracia plena e verdadeiramente justa ainda está distante, mas a corrida continua. E desistir, para mim, jamais será uma opção!

*Laryssa Almeida é Advogada, especialista em Ciências Criminais, mestre em Direito Econômico e doutoranda em Ciências Sociais (Antropologia) pela Universidade de Salamanca, Espanha, onde desenvolve pesquisas nas áreas de políticas públicas para inovação, uso de IA generativa nas publicações científicas e inclusão digital de grupos em situação de vulnerabilidade. Atualmente é Diretora Presidente do Centro de Inovação em Política, Economia e Direito (CIPED) e analista da Companhia de Desenvolvimento da Paraíba (CINEP), liderando projetos estratégicos de inovação, desenvolvimento econômico e políticas públicas.

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