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Da Tela à Rua: como a internet treina a Violência Contra Mulheres

*Por Laryssa Almeida

A cena que o Brasil viu e o Rio de Janeiro não esquece, desmonta de vez a tese de que “internet é só opinião”. O estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Copacabana, em 2026, foi um choque pela violência em si, mas também pelo que revelou sobre o nosso tempo: a misoginia digital não é um submundo inofensivo. Ela é um ambiente de treinamento, de validação e de incentivo que quando encontra oportunidade, vira violência.

Nesse caso, a barbárie não aparece do nada, mas se conecta a sinais, símbolos e rotas bem conhecidas. Um dos réus, Vitor Hugo Simonin, se apresentou à polícia usando uma camiseta com a frase “Regret nothing” (“Não se arrependa de nada”), lema associado ao influenciador Andrew Tate, figura central de uma estética de “dominação masculina” que circula em comunidades da chamada machosfera. É nesse ponto que a discussão deixa de ser abstrata. Não se trata apenas de “gosto pessoal” ou “humor ácido”, mas de redes que moldam comportamento, normalizam crueldade e, em casos extremos, ajudam a legitimar a violência contra mulheres.

Dados do Mapeamento de Canais Misóginos na Internet, realizado pelo NetLab (Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da UFRJ) em parceria com o Ministério das Mulheres, revelam a escalada do problema. Em 2024, foram identificados 137 canais do YouTube com conteúdo misógino, que somam 105.057 vídeos produzidos, 3,9 bilhões de visualizações e uma média de 152.426 inscritos por canal.

E, ainda, mais alarmante: 80% desses canais possuem alguma estratégia de monetização. Ou seja, o ódio não apenas circula, como ele gera lucro, muito lucro. O YouTube participa ativamente dessa economia: 52% dos canais misóginos geram receitas por anúncios, 28% usam o programa de membros da plataforma, e transmissões ao vivo de apenas oito canais arrecadaram mais de R$ 68 mil em doações. O discurso de ódio contra mulheres virou, literalmente, um negócio.

O estudo também mostra que 78% dos canais são administrados por homens, e 52% declaram explicitamente que seu conteúdo é voltado para público masculino. Os temas predominantes são “Desprezo às mulheres e estímulo à insurgência masculina” e “Sedução e relacionamentos”, tudo isso disfarçado de “desenvolvimento pessoal masculino”.

A machosfera, que se tornou o guarda-chuva que abriga grupos redpill e incels, entre outros, vende a ideia de um “despertar” para uma suposta verdade escondida sobre relações de gênero. Na prática, com frequência, vira uma linha de radicalização: adolescentes e jovens são empurrados para conteúdos que trocam frustração por ódio, insegurança por “hierarquia”, rejeição por “direito de punir”.

O levantamento do NetLab identificou que 89 canais ofendem ou incitam aversão a mulheres descritas como feministas. Conteúdos questionam direitos como pensão alimentícia e a Lei Maria da Penha, defendem que mulheres são “menos inteligentes” e devem se submeter aos companheiros, e encorajam táticas de manipulação e abuso psicológico como formas de “dominação” masculina.

Mulheres têm 27 vezes mais chances de serem assediadas ou atacadas em ambientes digitais do que homens, segundo a ONU Mulheres. Em 51 canais, há ataques diretos a mulheres específicas, como políticas, jornalistas, humoristas, ativistas e, justamente por esse protagonismo, acabam sendo os principais alvos.

O crescimento é exponencial. Segundo o estudo, 88% dos vídeos analisados foram publicados a partir de 2021, com aumento significativo em 2022. Um dos canais mais expressivos tem 900 mil inscritos e 2,8 mil vídeos. O canal mais produtivo publicou mais de 10 mil conteúdos desde 2019.

Ainda segundo dados do relatório, oito em cada dez canais que veiculam conteúdos misóginos contam com alguma forma de geração de receita. É essencial que redes sociais adotem práticas mais rigorosas para evitar que influenciadores transformem o ódio e o desprezo às mulheres em um negócio lucrativo.

É triste constatar que o livre uso das redes sociais para promoção de misoginia virou um absurdo normalizado. A mesma lógica que impulsiona “tendências” e monetiza engajamento também impulsiona humilhação, ameaça e incitação.

O exemplo mais recente é revelador: vídeos de homens simulando reações agressivas caso a mulher recuse um pedido de casamento. Em geral, a cena vem com música, corte rápido, “atuação” e comentários que tratam como brincadeira aquilo que, para muitas mulheres, é um medo real: a escalada do “não” para o ataque, do constrangimento para a humilhação, da frustração para a violência. Quando esse tipo de encenação viraliza, produz dois efeitos ao mesmo tempo: banaliza a ameaça e treina o imaginário coletivo para aceitar agressividade masculina como resposta “natural” à autonomia feminina. Não é só mau gosto. É pedagogia social.

O caso de Copacabana impulsionou novamente o debate sobre a necessidade de regulação das redes sociais e a criação de tipos penais específicos para o ódio digital. Nesse cenário, o PL 6075/2025, de autoria da deputada Sâmia Bomfim (PSOL/SP), propõe incluir no Código Penal o art. 287-A, tipificando o crime de promoção, incitação, difusão ou divulgação de conteúdo misógino, com pena de reclusão de 2 a 5 anos e multa.

O projeto também prevê agravantes com aumento de até 2/3 da pena quando houver uso de redes sociais, contas falsas, mecanismos automatizados (bots) ou financiamento para ampliar o alcance; quando a conduta mirar mulheres por sua atuação pública; e quando for praticada por agentes públicos.

Se existe um ponto em que liberdade de expressão encontra seu limite, é quando vira incitação e promoção de violência, ainda que disfarçada de meme, “ironia” ou tendência.

Por isso, é urgente avançar em três frentes.

Primeiro, na regulação das redes sociais e serviços de mensagens, tema do Projeto de Lei 2630/2020, conhecido como “Lei das Fake News”, que aguarda votação no plenário da Câmara.

Segundo, no desenvolvimento de políticas públicas de conscientização e combate à misoginia nas plataformas digitais, com atenção especial ao público masculino jovem.

E, por fim, na responsabilização das próprias plataformas.

A pergunta, no fim, é simples e desconfortável: vamos continuar tratando a misoginia online como folclore de internet até ela virar, de novo, notícia de polícia? Os dados do NetLab mostram que o problema tem escala, tem método, tem financiamento e tem consequências. O PL 6075/2025 e o PL 2630/2020 não resolvem tudo, pois, nenhuma lei resolve sozinha. Contudo, o Estado precisa reconhecer que há um tipo de violência que começa com palavras, cresce nas redes e, cedo ou tarde, cobra seu preço nas ruas. 


*Laryssa Almeida é Advogada, especialista em Ciências Criminais, mestre em Direito Econômico e doutoranda em Ciências Sociais (Antropologia) pela Universidade de Salamanca, Espanha, onde desenvolve pesquisas nas áreas de políticas públicas para inovação, uso de IA generativa nas publicações científicas e inclusão digital de grupos em situação de vulnerabilidade. Atualmente é Diretora Presidente do Centro de Inovação em Política, Economia e Direito (CIPED) e analista da Companhia de Desenvolvimento da Paraíba (CINEP), liderando projetos estratégicos de inovação, desenvolvimento econômico e políticas públicas.

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