Em julho de 2025, usei este espaço para provocar uma reflexão sobre o duplo padrão da liberdade de expressão no governo Trump, tendo o caso Epstein como um sombrio pano de fundo. Naquele momento, falávamos de suspeitas. Hoje, após a liberação de mais de 3 milhões de páginas de arquivos pelo Departamento de Justiça dos EUA, não estamos mais diante de uma teoria, mas de um diagnóstico sistêmico de um horror que desafia nossa própria ideia de humanidade.
O que esses documentos escancaram não é apenas um catálogo de crimes hediondos, mas uma arquitetura do medo sustentada por redes de poder que se julgavam invisíveis. De bilionários, celebridades a líderes mundiais, o que vemos é um ecossistema onde o poder não era exercido apenas pelo dinheiro, mas por meio do compromat (ou Kompromat), ou seja, o uso de segredos e traumas para garantir o silêncio e a obediência absoluta.
As menções a rituais macabros, abusos ritualísticos e até relatos perturbadores de violência física extrema contra menores pintam o retrato de uma classe dominante que operava em zonas totalmente fora dos limites mais elementares da moral humana.
A promessa de Donald Trump de “limpar o pântano” e liberar a lista completa de Epstein mostrou-se, nos arquivos atuais, uma peça de teatro político. Enquanto o presidente e sua equipe tentaram minimizar os laços, alegando desconhecimento das atrocidades de Epstein, documentos do FBI sugerem o contrário. Um relatório indica que, já em 2006, Trump teria dito a um chefe de polícia que “todos sabiam” o que o financista estava fazendo.
O governo que hoje ataca a imprensa e persegue opositores sob o pretexto de segurança nacional é o mesmo que, segundo legisladores, tentou “encobrir” nomes de abusadores e cúmplices nos novos arquivos, editando documentos para poupar figuras poderosas de desonra. A liberdade de expressão, para Trump, parece terminar onde começa a sua própria exposição: o mesmo presidente que ameaçou deportar Elon Musk por postagens no X é o que agora vê seu nome citado mais de 38mil vezes nos novos documentos.
O horror não se limita a Washington. As ondas de choque derrubaram embaixadores no Reino Unido, forçaram renúncias na Eslováquia e colocaram em xeque a legitimidade da monarquia na Noruega. Estamos falando de uma elite global que utilizava o acesso a garotas e crianças como moeda de troca para influenciar decisões de governos e assegurar interesses econômicos.
Nomes como Bill Clinton, citado em relatos de rituais perturbadores, e Bill Gates, que admitiu encontros mas agora tenta se distanciar, mostram que a rede de Epstein era o tecido que unia o poder global. Até figuras da tecnologia, como Elon Musk, aparecem em trocas de e-mails sobre as festas na ilha, embora negue qualquer envolvimento em condutas criminosas.
Aqui entra a ideia que precisamos debater: não pode haver inovação real em um sistema que deliberadamente permite a existência de “zonas fora da moral”. A liberação desses arquivos é a quebra de uma gigantesca ilusão. Revela que o sistema não apenas permitiu, mas protegeu esses monstros através de redes de chantagem e silêncio cúmplice.
A lição para o desenvolvimento da nossa sociedade é que a integridade não é um luxo, mas a infraestrutura básica do progresso. Sem ela, a tecnologia serve apenas para monitorar o cidadão comum enquanto protege o monstro nas sombras. A liberdade de expressão não pode ser um escudo para criminosos nem uma arma seletiva de políticos.
A verdadeira inovação exige transparência e a destruição desse sistema que permite a existência de “zonas fora da moral”. Se a democracia pretende sobreviver à quebra dessa ilusão, a justiça deve alcançar aqueles que, das sombras, acreditam que seu poder lhes confere o direito de serem monstros.
*Laryssa Almeida é Advogada, especialista em Ciências Criminais, mestre em Direito Econômico e doutoranda em Ciências Sociais (Antropologia) pela Universidade de Salamanca, Espanha, onde desenvolve pesquisas nas áreas de políticas públicas para inovação, uso de IA generativa nas publicações científicas e inclusão digital de grupos em situação de vulnerabilidade. Atualmente é Diretora Presidente do Centro de Inovação em Política, Economia e Direito (CIPED) e analista da Companhia de Desenvolvimento da Paraíba (CINEP), liderando projetos estratégicos de inovação, desenvolvimento econômico e políticas públicas.



