Nem todo símbolo nasce de um discurso. Alguns nascem de um ato de desobediência.
Hoje, 29 de março de 2026, corri a Viver Mulher, em Campina Grande, com o número 261 no peito. Um número simples, mas que carrega uma história que atravessa décadas e continua, infelizmente, atual.

Em 1967, Kathrine Switzer ousou fazer o que lhe era proibido: correu a Maratona de Boston, então restrita a homens. No meio da prova, um organizador tentou arrancar seu número à força. Ela não parou. Resistiu. Terminou a corrida. E mudou a história do esporte e das mulheres.
O número 261 nunca mais foi apenas um número. Tornou-se símbolo de coragem, de ruptura e de permanência diante da violência.
Hoje, ele também nomeia a organização global 261 Fearless, que utiliza a corrida como ferramenta de empoderamento feminino, criando redes de apoio, autoestima e pertencimento.
Mas correr com esse número, hoje, não é apenas homenagem. É posicionamento.
Na última quinta-feira (26), fui homenageada com o prêmio Ser Mulher Destaque 2026, na área de Inovação e Tecnologia, pela UNINASSAU, em Campina Grande. Uma ação simultânea nacional reconheceu trajetórias femininas em várias cidades brasileiras. Um reconhecimento que me honra profundamente, mas que também me atravessa com responsabilidade.
Porque ser mulher, no Brasil, ainda é resistir.
E resistir não pode ser apenas discurso de palco ou legenda de rede social. Precisa ser prática política.
Março termina e os dados nos lembram que não há espaço para a complacência. O Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, o maior número da última década, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior . Quando incluímos as tentativas, falamos de quase 7 mil mulheres atingidas pela violência extrema.
Não são números. São vidas interrompidas.
E essa realidade ganha novos contornos quando observamos o ambiente digital e político. Nesta semana, a Câmara dos Deputados foi palco de resistência. Não contra a violência, mas contra o seu enfrentamento.
O PL 896/2023, aprovado por unanimidade no Senado, propõe incluir a misoginia na Lei do Racismo (Lei 7.716/1989), reconhecendo-a como forma estruturada de discriminação. O texto define misoginia como a conduta que expressa ódio ou aversão às mulheres.
Ainda assim, enfrentou reação de parlamentares, majoritariamente homens, que insistem em tratar o ódio contra mulheres como opinião, e não como violência.
Mas a misoginia não é abstrata. Ela é concreta, cotidiana e escalável.
Como já discuti na coluna “Da Tela à Rua: Como a Internet Treina a Violência Contra Mulheres”, o ambiente digital deixou de ser apenas espaço de expressão para se tornar um ecossistema de normalização da crueldade. O que começa como “piada” termina, muitas vezes, como crime.
A liberdade de expressão não pode ser escudo para a violência.
E a omissão do Estado também é uma forma de violência.
Por isso, a pergunta permanece incômoda, mas necessária: vamos continuar tratando a misoginia online como folclore de internet até que ela, mais uma vez, vire notícia policial?
Corri hoje com o número 261 no peito. Cruzei a linha de chegada com orgulho, mas também com consciência.
Símbolos importam. Reconhecimentos importam. Homenagens importam.
Mas não bastam.
Se não se transformarem em ação concreta, em leis efetivas, proteção real e mudança cultural. Continuarão sendo apenas gestos vazios diante de uma realidade que insiste em nos desafiar.
Março termina. A luta, não.
*Laryssa Almeida é Advogada, especialista em Ciências Criminais, mestre em Direito Econômico e doutoranda em Ciências Sociais (Antropologia) pela Universidade de Salamanca, Espanha, onde desenvolve pesquisas nas áreas de políticas públicas para inovação, uso de IA generativa nas publicações científicas e inclusão digital de grupos em situação de vulnerabilidade. Atualmente é Diretora Presidente do Centro de Inovação em Política, Economia e Direito (CIPED) e analista da Companhia de Desenvolvimento da Paraíba (CINEP), liderando projetos estratégicos de inovação, desenvolvimento econômico e políticas públicas.



