
Um funcionário do Aeroporto Catarina, em São Roque (SP), registrou no livro de ocorrências, em recado escrito à mão, que o auditor fiscal da Receita Federal Marco Antônio Canella liberou malas e bolsas sem fiscalização no desembarque do voo em que estavam o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o senador Ciro Nogueira, no dia 20 de abril de 2025. O registro consta do inquérito da Polícia Federal obtido pelo portal de notícias g1.
Segundo a Polícia Federal, a descrição consta no livro de ocorrências mantido pelos APACs — agentes de proteção da aviação civil, responsáveis pela segurança aeroportuária e pelo registro de irregularidades.

De acordo com o relato manuscrito de um desses agentes, reproduzido nos autos da investigação (que você lê abaixo), o auditor Canella “liberou todas as malas e bolsas de mão com todos os eletrônicos, garrafas dentro das malas” e “autorizou a passar bagagens do tripulante fora do raio-x”.
LEIA NA ÍNTEGRA: “São Roque, 10 de abril de 2025. PP: OTG + desembarque que a Receita Federal Canella liberou todas as malas e bolsas de mão com todos os eletrônicos, garrafas dentro das malas () e autorizou a passar bagagem do tripulante fora do raio-x! Mesmo o pórtico apitando. Sem mais.”
O voo PP-OIG havia partido da ilha caribenha de São Martinho, classificada pela Receita Federal brasileira como paraíso fiscal desde 2016. A aeronave pertence ao empresário Fernando Oliveira Lima, conhecido como “Fernandin OIG”, que ganhou notoriedade nacional ao participar da CPI das Bets no Senado, ocasião em que negou ser dono do chamado Jogo do Tigrinho, plataforma de apostas online investigada pela comissão.
No caso em apuração, a PF busca esclarecer se a liberação das bagagens sem fiscalização foi um episódio isolado ou se indica um possível padrão de conduta irregular por parte do auditor responsável.
A lista oficial de passageiros, obtida pela Polícia Federal junto ao aeroporto, confirma a presença de parlamentares no voo. Além do presidente da Câmara, Hugo Motta, e do senador Ciro Nogueira, também estavam a bordo os deputados Doutor Luizinho e Isnaldo Bulhões, além do empresário Fernando Oliveira Lima, proprietário da aeronave.
A Polícia Federal apura os crimes de prevaricação e facilitação de contrabando. O inquérito foi enviado ao Supremo Tribunal Federal em abril de 2026 após a identificação de parlamentares com foro privilegiado entre os passageiros. O ministro Alexandre de Moraes determinou que a Procuradoria-Geral da República se manifeste sobre a investigação.
Em nota, o piloto José Jorge de Oliveira Júnior afirmou que não se recorda do dia do ocorrido, mas disse que segue procedimentos padrão no desembarque de voos. Segundo ele, “cada passageiro realiza o desembarque com seus pertences de forma individual” e “cada piloto transporta apenas seus próprios itens, de modo que, em eventual fiscalização, responda exclusivamente pelo que carrega”.
O auditor fiscal também foi procurado, mas, até a última atualização desta reportagem, não havia se manifestado.
Procurado pelo g1, o presidente da Câmara Hugo Motta (Republicanos) afirmou que “ao desembarcar no aeroporto, cumpriu todos os protocolos e determinações estabelecidas na legislação aduaneira” e que vai aguardar a manifestação da PGR.
O g1 procurou pelo senador Ciro Nogueira Lima Filho (PP), mas ele não se manifestou sobre o caso.
O deputado Doutor Luizinho disse que não vai se manifestar sobre o caso. Os demais parlamentares foram procurados, mas não se manifestaram. O g1 não localizou os demais citados.
G1



