Tarifaço e Terras Raras: por que é hora de ser cem por cento Brasil?
*Por Laryssa Almeida
O tarifaço imposto pelo governo Donald Trump sobre produtos brasileiros ameaça não apenas a economia do Brasil, mas também setores estratégicos do próprio Estados Unidos. De acordo com levantamento da CNI de fontes oficiais (IBGE e MDIC) e estudos econômicos do Núcleo de Estudos em Modelagem Econômica da UFMG, a medida deve provocar queda de 0,16 ponto percentual no PIB brasileiro (R$ 19,2 bilhões), perda de R$ 52 bilhões em exportações e 110 mil empregos diretos no país.

Os impactos atingem em cheio cadeias essenciais: tratores e máquinas agrícolas (-23,6% nas exportações), aeronaves e embarcações (-22,3%) e carnes de aves (-11,3%), reduzindo a produção industrial e pressionando a balança comercial brasileira.
Os EUA, que são o principal destino das exportações da indústria de transformação brasileira (78,2%) e o terceiro maior parceiro comercial do país, também sofrerão efeitos colaterais. Uma carta assinada por 11 senadores democratas e enviada a Donald Trump denuncia que as tarifas colocam em risco 130 mil empregos americanos e aumentariam os custos para famílias e empresas americanas. “Essa medida ameaça parceiros estratégicos e cria instabilidade desnecessária”, alertam os senadores. Confira o conteúdo da carta aqui.
Essa disputa vai além das tarifas. Com 25% das reservas conhecidas de Terras Raras, ou seja, minerais estratégicos para tecnologia, defesa, energia e indústria aeroespacial, o Brasil torna-se peça central em um xadrez geopolítico de longo alcance. Controlar esse recurso é vital para as cadeias produtivas globais e para a própria competitividade norte-americana.
Enquanto o governo brasileiro, liderado por Geraldo Alckmin e um grupo de senadores suprapartidários, busca diálogo com o setor produtivo americano e com o Congresso, a Casa Branca restringe as negociações sob influência de Paulo Figueiredo (neto do ditador João Figueiredo).
Nesse cenário, o debate político interno parece cada vez mais deslocado da realidade. Enquanto Michele Bolsonaro percorre a Paraíba pregando “esperança” e pedindo que a população “enxergue pelos olhos da fé”, seu enteado, Eduardo Bolsonaro, atua em Washington para enfraquecer a economia brasileira e tudo isso enquanto recebe, ironicamente, R$ 46 mil mensais pagos pelos contribuintes brasileiros como deputado federal.
A situação torna-se ainda mais grave diante das ameaças públicas feitas por Eduardo Bolsonaro aos presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, caso não avancem com a pauta de anistia e o pedido de impeachment do ministro do STF Alexandre de Moraes. Em suas próprias palavras, o deputado afirmou: “Davi Alcolumbre está no foco do governo americano e pode não ser sancionado se não der respaldo a esse regime. E também Hugo Motta, porque na Câmara existe a novidade da lei da anistia.” Uma declaração que beira a chantagem diplomática e expõe uma postura de alinhamento externo contra o próprio país.
Hoje, os conceitos tradicionais de direita e esquerda perderam qualquer coerência. Setores que se autointitulam ultranacionalistas e conservadores apoiam abertamente o tarifaço dos EUA, mesmo que isso prejudique a economia brasileira e destrua empregos nacionais. Ao mesmo tempo, defender nossos exportadores, os empregos e a competitividade do país passou a ser taxado por essa extrema direita como “coisa de comunista”.
O que está em jogo não é ideologia, mas o futuro econômico e soberano do Brasil, bem como, quem, de fato, está disposto a defendê-lo.
Para concluir, vale destacar um trecho da carta em defesa da soberania nacional diante do tarifaço de Trump, assinada por mais de 200 entidades da sociedade civil reunidas na Faculdade de Direito da USP na última sexta-feira (25 de julho):
“Brasileiras e brasileiros, diálogo e negociação são normais nas relações diplomáticas, violência e arbítrio, não! Nossa soberania é inegociável. Quando a nação é atacada, devemos deixar nossas eventuais diferenças políticas, para defender nosso maior patrimônio. Sujeitar-se a esta coação externa significaria abrir mão da nossa própria soberania, pressuposto do Estado Democrático de Direito, e renunciar ao nosso projeto de nação.
Somos cem por cento Brasil!”
*Laryssa Almeida é jornalista, advogada, mestre em Direito Econômico pela UFPB, doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade de Salamanca na Espanha. Ex-Secretária de Ciência Tecnologia e Inovação e de Desenvolvimento Econômico do Município de Campina Grande. Atualmente é Assessora Especial da CINEP.



