
Uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo revelou que ao menos nove candidatos registrados para as eleições de 2026 aparecem em investigações ou ações judiciais relacionadas a supostos vínculos com organizações criminosas, apesar da pressão exercida pelo Ministério Público para que os partidos barrassem esse tipo de candidatura. Entre os nomes citados está o ex-prefeito de Cabedelo (PB), Victor Hugo Castellano (MDB), apontado como um dos políticos que enfrentam acusações de ligação com grupos criminosos. (Folha de S.Paulo)
Segundo a reportagem, o Ministério Público vem pressionando as legendas desde o primeiro semestre deste ano para criar mecanismos internos capazes de impedir a candidatura de pessoas investigadas por conexões com facções criminosas, milícias ou esquemas ligados ao crime organizado. Algumas siglas chegaram a adotar filtros e procedimentos de verificação, mas diversos candidatos considerados problemáticos conseguiram obter registro eleitoral.
Caso Victor Hugo Castellano
De acordo com a Folha, Victor Hugo Castellano foi incluído na lista de candidatos sob suspeita por supostas ligações com a chamada Tropa do Amigão, organização apontada por investigações como associada ao Comando Vermelho na Paraíba. A candidatura do ex-prefeito de Cabedelo foi registrada mesmo diante das acusações e do acompanhamento realizado por órgãos de investigação.
A reportagem destaca que o nome de Castellano integra um grupo de políticos que já foram alvo de investigações ou procedimentos judiciais relacionados ao avanço de organizações criminosas sobre estruturas de poder local.
A contestação do Ministério Público ao registro de candidatura não equivale a uma condenação. Até o momento, não há condenação transitada em julgado que impeça Victor Hugo Castellano de disputar as eleições, cabendo à Justiça Eleitoral a decisão final sobre o caso.
Ministério Público intensifica pressão
O Ministério Público tem defendido que partidos políticos realizem uma análise mais rigorosa dos antecedentes de seus candidatos. A preocupação central é impedir que pessoas investigadas por relações com facções ou milícias utilizem mandatos eletivos para ampliar influência política, econômica ou territorial dessas organizações.
Promotores e procuradores argumentam que, embora a legislação eleitoral permita o registro de candidaturas de investigados que não tenham condenações impeditivas, os partidos possuem responsabilidade política e ética na seleção de seus representantes. Por isso, foram estimulados a criar mecanismos de compliance e filtros internos antes da homologação das chapas.
Outros nomes citados
Além de Victor Hugo Castellano, a reportagem menciona outros candidatos que aparecem em investigações ou ações relacionadas a organizações criminosas.
Entre eles estão:
- Ney Santos (Republicanos), ex-prefeito de Embu das Artes (SP), investigado por suposta ligação com o PCC;
- Ely Santos, irmã de Ney Santos, que também já foi alvo de medidas judiciais relacionadas às mesmas investigações;
- Binho Galinha (Avante), deputado estadual baiano apontado em investigações sobre atuação de milícia;
- Márcio Canella (União Brasil), investigado em apurações sobre lavagem de dinheiro;
- João Drumond (PRD), neto do histórico contraventor Luizinho Drumond;
- Junior da Lucinha (PSD) e Val Ceasa (PRD), citados em investigações relacionadas ao ambiente de influência de grupos criminosos no Rio de Janeiro.
Debate sobre a influência do crime na política
O levantamento reacende um debate antigo sobre a presença de organizações criminosas na disputa eleitoral brasileira. Especialistas em segurança pública alertam que facções e milícias buscam ampliar influência não apenas por meio da violência e do controle territorial, mas também pela ocupação de espaços institucionais, incluindo câmaras municipais, assembleias legislativas e o Congresso Nacional.
A preocupação das autoridades é que mandatos políticos possam ser utilizados para obtenção de informações privilegiadas, influência sobre políticas públicas, acesso a recursos estatais e fortalecimento de redes de proteção para atividades criminosas.
Registro não significa culpa
A própria discussão levantada pela reportagem ocorre dentro de um contexto jurídico delicado. O fato de um candidato estar sob investigação ou responder a processos não representa automaticamente culpa ou condenação. Caberá à Justiça Eleitoral analisar eventuais pedidos de impugnação e verificar se existem elementos legais capazes de impedir a participação desses candidatos na disputa.
Ainda assim, o caso de Victor Hugo Castellano e dos demais nomes citados amplia a pressão sobre partidos políticos e órgãos de fiscalização para impedir que suspeitas de vínculos com facções criminosas avancem para dentro das estruturas formais do poder político brasileiro.
FONTE: FOLHA DE SÃO PAULO



