Corrida, Política e Resiliência: o desenvolvimento que começa nas pessoas
*Por Laryssa Almeida
Recentemente participei de mais uma prova de corrida de rua. Ao longo dos 21km de percurso repeti um gesto que se tornou tradição pessoal: formar com as mãos as letras “L” e “A” (como na foto), uma lembrança da campanha para vereadora que vivi em 2024.
Pode parecer apenas uma brincadeira ou uma referência afetiva a um momento importante da minha trajetória. Mas, ao longo dos quilômetros percorridos, percebi que existe uma relação profunda entre a corrida e a atividade política.

Vivemos em uma época em que muito se fala sobre inovação, desenvolvimento econômico, cidades inteligentes e transformação digital. Todos esses temas são fundamentais. Entretanto, existe um elemento que antecede qualquer estratégia de desenvolvimento: a capacidade humana de persistir diante das dificuldades.
Correr é muito mais do que mover os pés rapidamente. É um exercício constante de adaptação física e mental. O corpo aprende a suportar o esforço. A mente aprende a lidar com o desconforto, a ansiedade e a fadiga sem perder o foco no objetivo final.
Na política, ocorre algo semelhante.
Quem participa da vida pública descobre rapidamente que as transformações não acontecem na velocidade desejada. Projetos enfrentam resistências. Ideias encontram obstáculos. Críticas, incompreensões e derrotas fazem parte do percurso. Nem sempre o resultado corresponde ao esforço investido.
É nesse ponto que a resiliência deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser uma competência essencial.
Os ecossistemas de inovação mais bem-sucedidos do mundo não são construídos apenas por pessoas criativas. São construídos por pessoas que persistem. Empreendedores que fracassam e tentam novamente. Pesquisadores que passam anos desenvolvendo soluções. Gestores públicos que enfrentam burocracias para implementar mudanças. Lideranças comunitárias que trabalham décadas por melhorias em seus territórios.
O desenvolvimento de uma sociedade depende tanto de tecnologia quanto da capacidade de seus cidadãos de manterem o compromisso com o futuro, mesmo quando os resultados demoram a aparecer.
Talvez por isso a corrida de rua tenha conquistado tantas pessoas nos últimos anos. Ela ensina uma lição valiosa para além do esporte: o progresso raramente acontece em saltos. Ele é construído passo a passo, com disciplina, consistência e visão de longo prazo.
A mesma lógica vale para a política, para a gestão pública e para o desenvolvimento regional.
Não existe inovação sem persistência. Não existe transformação sem participação. E não existe desenvolvimento sustentável sem pessoas dispostas a continuar caminhando, ou correndo, mesmo quando o percurso se torna desafiador.
Ao cruzar aquela linha de chegada, compreendi mais uma vez que o verdadeiro objetivo nunca foi apenas completar uma prova. O objetivo é fortalecer as capacidades que nos permitem enfrentar desafios cada vez maiores.
Porque, no fim das contas, as sociedades mais desenvolvidas não são aquelas que enfrentam menos obstáculos. São aquelas que formam pessoas mais preparadas para superá-los.
*Laryssa Almeida é Advogada, especialista em Ciências Criminais, mestre em Direito Econômico e doutoranda em Ciências Sociais (Antropologia) pela Universidade de Salamanca, Espanha, onde desenvolve pesquisas nas áreas de políticas públicas para inovação, uso de IA generativa nas publicações científicas e inclusão digital de grupos em situação de vulnerabilidade. Atualmente é Diretora Presidente do Centro de Inovação em Política, Economia e Direito (CIPED) e analista da Companhia de Desenvolvimento da Paraíba (CINEP), liderando projetos estratégicos de inovação, desenvolvimento econômico e políticas públicas.



