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Da Geologia à Inovação: O Futuro das Cidades Inteligentes Começa no Subsolo

*Por Laryssa Almeida

Quando pensamos em “Cidades Inteligentes” (em inglês, Smart Cities), a imagem que nos vem à mente costuma ser a de painéis solares, carros elétricos, redes 5G e inteligência artificial. No entanto, o que raramente percebemos é que toda essa superestrutura tecnológica depende, fundamentalmente, da mineração.

Foi exatamente essa reflexão que me motivou a sugerir e mediar a mesa “Da Geologia à Inovação: como a mineração pode impulsionar cidades inteligentes” durante o Smart Cities Park, evento promovido pela FAMUP e que aconteceu entre os dias 10 e 12 de junho no Centro de Convenções de Campina Grande. Unindo minha vivência anterior como Secretária Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação da cidade (2021-2024) ao meu trabalho atual na Companhia de Desenvolvimento da Paraíba (CINEP), onde lido diretamente com o tema, senti que era essencial trazer esse debate para o centro da programação. Não existe transformação digital ou transição energética sem a mineração.

Nossa mesa reuniu especialistas do setor público, do Serviço Geológico do Brasil (SGB) e da área jurídica para debater uma premissa fundamental: a mineração do século XXI exige muito mais do que a simples extração de recursos. Ela demanda inteligência territorial, sustentabilidade, segurança jurídica e agregação de valor.

Para que uma cidade seja inteligente, ela precisa de materiais críticos. Baterias de alta performance dependem de lítio e cobalto; redes elétricas e de internet exigem cobre; sensores e turbinas eólicas necessitam de terras raras. Como bem pontuou o Dr. Arnaldo Bezerra, gerente regional da Agência Nacional de Mineração (ANM) na Paraíba, “toda inovação começa no subsolo”.

Além de fornecer a matéria-prima, a própria indústria mineral está se transformando no que chamamos de Mineração 4.0. O uso de drones, redes privadas 5G, IA preditiva e monitoramento ambiental em tempo real nas minas funciona como um protótipo das próprias Smart Cities. Mais do que isso, os royalties da mineração, ou seja, a CFEM (Compensação Financeira pela Exploração Mineral), representam um instrumento estratégico que pode e deve financiar a transformação digital e a infraestrutura dos nossos municípios, deixando um legado permanente que ultrapassa a vida útil das minas.

Outro ponto alto do nosso debate, que dialoga diretamente com a sustentabilidade urbana, foi a abordagem da Dra. Maria Clara sobre a “mineração urbana”. Em vez de extrair recursos apenas da natureza, precisamos olhar para as nossas próprias cidades como fontes de matéria-prima, recuperando metais valiosos de equipamentos descartados. Isso me fez lembrar com muito orgulho do projeto ReciclaTECH, que executamos durante minha gestão na Secretaria de Ciência e Tecnologia em Campina Grande. Através de uma busca ativa de lixo eletrônico, conseguimos recolher mais de uma tonelada de materiais. Essa é a prova prática de que a inovação também passa por ressignificar o que consideramos “lixo”, transformando-o em recurso para o futuro.

O Nordeste, e a Paraíba em especial, estão se posicionando estrategicamente nesse novo cenário. A Dra. Hortência Maria Barbosa de Assis, Superintendente do SGB, e o Dr. Marcelo Falcão, Diretor de Mineração da SEIRH-PB, apresentaram os avanços cruciais da parceria entre o Estado e o Governo Federal. O novo Mapa Geológico do Estado da Paraíba (com entrega prevista para os próximos meses) e os novos levantamentos aerogeofísicos estão eliminando “vazios” cartográficos. Isso significa transformar o potencial mineral desconhecido em dados concretos, reduzindo riscos exploratórios e atraindo investimentos, com foco em minerais críticos, como os pegmatitos portadores de lítio e terras raras, por exemplo.

Contudo, ter o recurso no subsolo (ou no lixo eletrônico) não basta. O Dr. Ruy Bezerra, Diretor de Desenvolvimento Econômico da CINEP, reforçou que o grande desafio é a industrialização e a governança. Precisamos reduzir o tempo de regularização e licenciamento ambiental sem perder o rigor, organizar os Arranjos Produtivos Locais (APLs) e preparar as pequenas e médias empresas para serem competitivas.

Sob a ótica do direito e da antropologia, o desenvolvimento territorial sustentável exige que as comunidades locais sejam integradas a esse processo. A mineração moderna não pode ser um enclave isolado. Ela deve dialogar com o território, respeitar as dinâmicas sociais e gerar riqueza que se converta em qualidade de vida real para as pessoas.

Estar ali, mediando essa troca de ideias em Campina Grande, reforçou uma lição clara: o futuro das nossas cidades não será construído apenas com algoritmos nas nuvens, mas com uma gestão humana, inteligente e estratégica das riquezas que estão sob os nossos pés e em nossas próprias mãos.

Por fim, é preciso reconhecer quem viabiliza esses espaços de construção coletiva. Deixo meus parabéns à FAMUP pela realização histórica do Smart Cities Park, estendendo meus cumprimentos ao presidente George Coelho e ao secretário executivo Pedro Dantas, que tiveram a sensibilidade de abraçar a sugestão desta pauta. Ver mais de 3 mil pessoas reunidas em Campina Grande ao longo de três dias, respirando tecnologia, inovação e gestão pública, nos dá a certeza de que a Paraíba já está, hoje, desenhando o amanhã.

Seguem as apresentações:

Dra Hortência – SGB.   Dr Marcelo – Diretoria Mineração PB   Dr Arnaldo – Gerência ANM  

*Laryssa Almeida é Advogada, especialista em Ciências Criminais, mestre em Direito Econômico e doutoranda em Ciências Sociais (Antropologia) pela Universidade de Salamanca, Espanha, onde desenvolve pesquisas nas áreas de políticas públicas para inovação, uso de IA generativa nas publicações científicas e inclusão digital de grupos em situação de vulnerabilidade. Atualmente é Diretora Presidente do Centro de Inovação em Política, Economia e Direito (CIPED) e analista da Companhia de Desenvolvimento da Paraíba (CINEP), liderando projetos estratégicos de inovação, desenvolvimento econômico e políticas públicas.

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